Orgulho: Quando ele é bom e quando ele destrói
Orgulho é uma das emoções mais complexas que existem. Porque ele tem dois lados completamente diferentes, ele pode representar o amor verdadeiro ou a arrogância destrutiva
Giovani Campregher
7/29/20263 min read


Orgulho é uma das emoções mais complexas que existem. Porque ela tem dois lados completamente diferentes.
Existe o orgulho que é lindo. Aquele que sentimos quando vemos alguém que amamos superar um desafio, crescer, realizar algo que sempre sonhou. O pai que vê o filho subir num palco pela primeira vez. A mãe que acompanha a filha conquistar o emprego que tanto queria. O amigo que celebra de verdade a vitória do outro. Esse orgulho é um ato de amor — é reconhecer o valor de alguém, é dizer sem palavras: eu vi o quanto você se dedicou, e fico feliz por você. Não há nada de errado nisso. Pelo contrário, é exatamente esse tipo de reconhecimento que nos move a continuar.
E existe o orgulho que corrói. Aquele que não deixa pedir desculpa. Que não consegue admitir um erro. Que sempre precisa ser o mais inteligente, o mais capaz, o único que sabe fazer direito. Esse tipo de orgulho não nasce do esforço — nasce da arrogância. E a diferença entre os dois é enorme.
"O orgulho é o maior dos pecados, pois ele nos afasta de Deus e nos leva a acreditar que somos superiores aos outros."
Santo Agostinho
A psicóloga Jessica Tracy, da Universidade da Colúmbia Britânica, passou anos pesquisando exatamente isso. Ela identificou dois tipos distintos de orgulho: o orgulho autêntico, que nasce do esforço e da conquista genuína, e o orgulho húbrico, que nasce da arrogância e da necessidade de se sentir superior aos outros. O orgulho autêntico está ligado a autoestima saudável, bons relacionamentos e bem-estar emocional. O orgulho húbrico está ligado a narcisismo, agressividade e relacionamentos destruídos.
No dia a dia, o orgulho destrutivo aparece de formas que muita gente reconhece mas poucas admitem. É a pessoa que nunca pede desculpa, mesmo sabendo que errou. Que nunca pede ajuda, mesmo não sabendo fazer. Que sempre acha que está certa e que todos ao redor precisam mudar — menos ela. Que não consegue ouvir o outro de verdade porque já está formulando o argumento para provar que tem razão. Essa pessoa pode ter dinheiro, pode ter status, pode ter uma posição invejável — mas aos poucos vai ficando sozinha. Vamos ser sinceros, meu querido e minha querida ninguém aguenta conviver com quem nunca erra, nunca cede, nunca cresce.
E o mais triste é o que vem depois. A pessoa orgulhosa, quando se vê sozinha, quando os relacionamentos vão embora um a um, raramente olha para dentro. Ela se vitimiza. Pergunta por que tudo acontece só com ela. Culpa os outros pelo que construiu com as próprias mãos. Porque o orgulho destrutivo e a autorresponsabilidade não conseguem existir juntos — onde um entra, o outro sai.
Ser orgulhoso nesse sentido não é força. É fragilidade disfarçada. É uma pessoa que tem tanto medo de parecer fraca que prefere destruir tudo ao redor a admitir que errou ou que não sabe algo. E o preço é alto: relacionamentos que poderiam ser lindos, amizades que poderiam durar a vida toda, família que poderia estar próxima — tudo se afasta porque ninguém quer estar perto de quem nunca os enxerga de verdade.
O orgulho saudável, por outro lado, coexiste com humildade. É possível ter muita alegria e satisfação do que construímos e ainda assim reconhecer que erramos. É possível reconhecer nossa capacidade no que fazemos e ainda assim pedir ajuda quando precisamos. É possível celebrar nossas conquistas e ainda assim celebrar as conquistas dos outros com a mesma alegria.
Como identificar em qual lado estamos? Uma pergunta simples resolve: quando foi a última vez que pedimos desculpa de verdade? Que admitimos um erro sem justificar? Que pedimos ajuda sem sentir que isso nos diminuía? Se essas situações parecem distantes ou desconfortáveis demais, talvez valha a pena olhar com honestidade para o orgulho que estamos carregando — e perguntar se ele está nos construindo ou nos isolando.
Orgulho de quem amamos é lindo. Sentirmos alegria e satisfação pelo que construímos com esforço é saudável. Orgulho que nos impede de crescer, de pedir desculpa e de amar de verdade — esse precisa ser revisto.
